A dinâmica e os bastidores do jogo político
A política é frequentemente comparada a um espetáculo, mas difere de um balé. Entre promessas e retórica, o jogo eleitoral revela estratégias de persuasão e poder.
Os atores políticos movimentam-se constantemente no cenário público. São deslocamentos esperados, embora muitas vezes executados de forma atabalhoada, apressada ou, em certos momentos, com uma lentidão que beira a falta de sincronia. É um equívoco, contudo, tentar comparar a disputa eleitoral a um balé clássico. Diferente de obras como O Lago dos Cisnes ou Giselle , onde a coreografia e a música narram uma história coesa, o ambiente político é regido por outros interesses.
Embora existam passos ensaiados e gestos meticulosamente preparados, tudo no jogo político é desenhado para a persuasão, que não deve ser confundida com o convencimento. Como já pontuava Aristóteles em sua Retórica , persuadir e convencer são ações distintas, sem parentesco direto, apesar da confusão frequente que permeia o debate público. Essa imprecisão de sentidos é, por vezes, denunciada e, em outras, convenientemente acobertada pelos próprios agentes.
O teatro político transforma-se em um espetáculo onde os atores se aproximam e se distanciam conforme a conveniência, muitas vezes travando embates públicos através da imprensa ou em debates televisivos. Tais formatos de debate, aliás, tornaram-se obsoletos, com dinâmicas que pouco contribuem para avaliar a real competência ou a capacidade de gestão dos candidatos. Afinal, governar exige muito mais do que a habilidade de regurgitar palavras ou desfiar um rosário de promessas.
Existe uma diferença fundamental entre prometer e propor. Enquanto a proposição exige estudos, avaliações e argumentos sólidos baseados em fatos, a promessa eleitoral tende a se perder nos escaninhos da campanha, sendo raramente lembrada ou cumprida após o pleito. O político, muitas vezes, adota uma postura de indiferença diante das cobranças, assemelhando-se ao icônico personagem Odorico Paraguaçu, imortalizado na dramaturgia brasileira.
Os modernos Odoricos renovam seus discursos, incorporam novos arquétipos e frequentemente utilizam a religião e a figura divina como cabos eleitorais, criando bordões que alimentam suas próprias bolhas. Essas bolhas, fragmentadas em feudos digitais, operam de forma isolada nas redes sociais, sem estabelecer um diálogo real entre si. Cada grupo parece habitar sua própria caverna, onde a realidade é reduzida a sombras projetadas nas paredes.
Esse fenômeno do discurso único é prejudicial à pluralidade de ideias e visões de mundo. Leituras que instigam o pensamento crítico e provocam questionamentos são essenciais para o enriquecimento do debate social, mas costumam contrariar os interesses dos chamados coronéis da política. Para esses atores, o pensamento plural representa uma ameaça, um xeque-mate em suas verdades que, sob análise, revelam-se em processo de decomposição.
Na tentativa de preservar seu poder, esses grupos buscam vender seus interesses particulares como se fossem anseios coletivos da sociedade. A análise do jogo político revela, portanto, uma estrutura onde a encenação muitas vezes se sobrepõe à substância, desafiando o eleitor a distinguir o que é proposta real do que é apenas parte do espetáculo.
Lourembergue Alves é professor universitário e estudioso do jogo político.
Fonte: midianews.com.br