Fitch avalia economia francesa e aponta manutenção de nota c
A agência de classificação de risco Fitch analisa a situação fiscal da França em meio a desafios de crescimento e instabilidade política antes da votação do orçamento.
Para o governo liderado por Sébastien Lecornu, a simples manutenção da estabilidade financeira é vista como um alívio necessário. Nesta sexta-feira, a exatamente um mês da apresentação formal do projeto de lei orçamentária para 2027 na Assembleia Nacional, a agência de classificação de risco Fitch prepara-se para emitir um novo parecer sobre a nota de crédito soberano da França, a segunda maior economia da União Europeia. Atualmente, o país detém a nota A+ com perspectiva estável.
A França perdeu sua classificação AA em setembro de 2025, momento em que a Fitch penalizou o país devido à acentuada instabilidade política. O cenário na época foi marcado pela dissolução parlamentar e pela curta duração dos mandatos dos governos de Michel Barnier e Gabriel Bayrou, que permaneceram no poder por apenas 99 e 270 dias, respectivamente. Essa avaliação foi posteriormente ratificada em março de 2026.
Em entrevista, Hadrien Camatte, economista sênior para França, Bélgica e zona do euro na Natixis CIB, projeta que o cenário mais provável seja a manutenção da nota atual. Contudo, o especialista ressalta que a possibilidade de uma mudança para uma perspectiva negativa não pode ser totalmente descartada. Segundo Camatte e seu colega, o estrategista de taxas de juros Théophile Legrand, o ambiente macroeconômico apresentou uma leve deterioração desde o início do ano.
Os analistas apontam, especificamente, para uma revisão para baixo nas projeções de crescimento para 2026, influenciada pelos desdobramentos da guerra no Oriente Médio. Enquanto a Fitch estimava um crescimento de 1% em março, o governo francês já havia ajustado sua previsão para 0,7%, enquanto a Natixis CIB trabalhava com uma estimativa ainda mais cautelosa, de 0,6%.
Dados divulgados nesta sexta-feira confirmaram a fragilidade do momento: o Produto Interno Bruto (PIB) francês estagnou no segundo trimestre, registrando 0,0% de variação, contrariando a expectativa inicial de um crescimento de 0,2% divulgada pelo Insee. O instituto atribuiu o resultado, em parte, à situação crítica da produção agrícola, agravada pelas condições climáticas observadas até o final de julho.
O ministro da Economia, Roland Lescure, comentou o dado durante as Universidades de Verão da Economia de Amanhã, classificando o resultado como o primeiro impacto concreto de um verão marcado por ondas de calor sucessivas e períodos severos de seca. Em relação ao déficit público, a Fitch projeta um patamar de 4,9% do PIB, próximo à meta de 5% estabelecida pelo governo, enquanto a Natixis CIB prevê 5,1%.
Camatte e Legrand alertam que esses níveis não oferecem margem de manobra orçamentária para reduções significativas nos próximos anos. A dívida pública francesa deve seguir em trajetória de alta pelo menos até 2030, pressionada pelo aumento expressivo dos encargos com juros. Este é um ponto central para a agência de classificação, que já havia alertado em março que a incapacidade de implementar medidas de consolidação fiscal seria um fator determinante para a nota do país.
Os analistas da Natixis CIB observam que o próximo ciclo orçamentário será particularmente complexo, com a proximidade das eleições presidenciais elevando a volatilidade política. Apesar disso, acreditam que a Fitch poderá manter uma postura paciente, considerando que o ciclo de ajustes ainda não começou e que os riscos mais graves podem se materializar apenas em 2027.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu pretende apresentar o orçamento para 2027 no dia 30 de setembro, visando iniciar os debates parlamentares em outubro. O cenário político, contudo, já apresenta resistência: Jean-Luc Mélenchon, líder do movimento A França Insubmissa (LFI), já anunciou que pretende apresentar uma moção de censura contra a proposta orçamentária do governo.
Fonte: pt.euronews.com