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Missão BepiColombo da ESA prepara-se para etapa crucial na e

Após oito anos de viagem, a sonda BepiColombo inicia manobras decisivas para entrar na órbita de Mercúrio, enfrentando desafios extremos de radiação e temperatura.

Após uma jornada de oito anos pelo espaço, a sonda BepiColombo encontra-se em um momento determinante para a sua inserção na órbita de Mercúrio. O planeta, conhecido por sua densidade composta de metais e silicatos, apresenta um dos cenários mais desafiadores para a exploração espacial devido à intensa radiação solar e à poderosa força gravitacional que exerce.

Santa Martinez, gestora da missão na Agência Espacial Europeia (ESA), destaca a complexidade do destino. Segundo a especialista, operar em Mercúrio exige lidar com variações térmicas extremas, que oscilam entre -180 ºC e 450 ºC, além de uma radiação solar até dez vezes superior à encontrada na órbita terrestre.

No centro de controlo ESOC, na Alemanha, as equipas de engenharia preparam-se para o dia 3 de setembro. Nesta data, a sonda passará por um processo de separação que deixará os seus instrumentos expostos a um ambiente hostil. O diretor de voo, Ignacio Tanco, descreve a operação como um trabalho no “fio da navalha”, comparando a situação a manter um equipamento sensível próximo a uma fonte de calor intensa.

Um dos pontos críticos da manobra envolve os painéis solares. A inclinação deve ser mantida com precisão absoluta; qualquer desvio pode resultar em perda de energia ou danos irreversíveis pelo calor solar. A complexidade é ampliada pelo atraso de 11 minutos nas comunicações de rádio, o que exige que as equipas estejam prontas para reagir a imprevistos de forma autônoma.

A missão, a primeira da Europa com destino a Mercúrio, atingirá um marco importante com a separação do Módulo de Transferência para Mercúrio (MTM). Após a manobra, o MTM, que serviu como propulsor durante a longa viagem, tornar-se-á um módulo passivo, seguindo uma trajetória sem controle pelo espaço interplanetário.

Enquanto isso, as duas sondas científicas — o Mercury Planetary Orbiter (MPO), da ESA, e o Mercury Magnetospheric Orbiter (Mio), da JAXA — iniciarão a sua fase de operação. O MPO focará no estudo da superfície e do interior do planeta, enquanto o Mio investigará o ambiente magnético e espacial ao redor do astro.

A trajetória até Mercúrio foi desenhada para reduzir a velocidade da sonda através de nove sobrevoos planetários, utilizando motores iônicos. Esse método foi necessário porque, ao cair em direção ao Sol, a sonda acelera devido à gravidade, tornando a captura em órbita um processo que exige um consumo energético muito superior ao de missões para planetas mais distantes.

Após a separação, as sondas permanecerão acopladas por um período, permitindo que os instrumentos, antes protegidos pelo módulo de transferência, iniciem as primeiras observações. A sequência de queimas de propulsores químicos, prevista para o final de novembro e início de dezembro, será fundamental para permitir a captura gravitacional definitiva pelo planeta.

A separação final entre o MPO e o Mio ocorrerá apenas após a captura, permitindo que cada sonda siga para a sua órbita específica. O processo de comissionamento e ajuste fino dos sistemas deve estender-se até março de 2027, com a fase científica dedicada iniciando-se oficialmente em abril daquele ano.

O interesse científico em Mercúrio é vasto. O planeta possui um núcleo de ferro desproporcionalmente grande, que compõe 60% do seu volume, um fator que intriga os pesquisadores sobre a origem do seu campo magnético. Além disso, o planeta apresenta fenômenos como o encolhimento do núcleo e estruturas superficiais denominadas 'hollows', possivelmente causadas pela evaporação de materiais voláteis.

A missão também buscará confirmar a presença de gelo de água em crateras polares permanentemente sombreadas e analisar a tênue liberação de gases da superfície. Compreender a formação de Mercúrio é, para os cientistas, uma chave para entender a evolução de planetas rochosos e a formação de exoplanetas em outros sistemas estelares.

Fonte: pt.euronews.com