Alô Mato Grosso

O desafio financeiro da oncologia: a sustentabilidade dos ho

A sustentabilidade dos hospitais filantrópicos, pilares do tratamento oncológico no SUS, enfrenta crise devido à defasagem na tabela de remuneração de procedimentos.

A estrutura do tratamento oncológico no Brasil depende fundamentalmente da atuação de hospitais filantrópicos credenciados pelo Ministério da Saúde. De um total de 338 unidades habilitadas em todo o território nacional, 205 pertencem ao setor filantrópico. Em 2025, essas instituições foram responsáveis por 66% das 4,7 milhões de sessões de quimioterapia e por 73% dos quase 190 mil procedimentos de radioterapia realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Essas entidades, que operam como Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) ou Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon), enfrentam um dilema central: a sustentabilidade financeira. Atualmente, a remuneração é baseada majoritariamente na produção, utilizando uma tabela que, segundo estimativas do próprio setor, acumula uma defasagem de aproximadamente 60%.

Para manter as portas abertas, os hospitais precisam cobrir o abismo entre o valor repassado pelo SUS e o custo real do atendimento por meio de fontes alternativas, como doações, complementações estaduais, emendas parlamentares ou, em casos extremos, o endividamento. O Hospital de Câncer de Mato Grosso (HCanMT) exemplifica essa fragilidade financeira.

Entre setembro de 2024 e setembro de 2025, o HCanMT registrou 246.891 atendimentos, volume que incluiu 37.562 sessões de quimioterapia, 32.782 de radioterapia, 6.946 internações e 5.632 cirurgias. No mesmo período, a receita mensal média da instituição foi de R$ 6,8 milhões, composta por R$ 5,3 milhões do contrato SUS, R$ 765 mil do Fundo Estadual e R$ 800 mil em doações. Contudo, as despesas operacionais atingiram R$ 10,1 milhões, gerando um déficit estrutural mensal de R$ 3,3 milhões, sendo que apenas os gastos com insumos e medicamentos consumiram R$ 3,3 milhões.

A disparidade é evidente na prática clínica: uma internação oncológica, por exemplo, pode ter um custo real de até R$ 8.050, enquanto o repasse do SUS é de apenas R$ 1.438. Esse desequilíbrio não pode ser mitigado apenas com ganhos de eficiência administrativa. Sem aportes complementares, as instituições ficam limitadas a reduzir a oferta de serviços ou comprometer sua viabilidade econômica.

O cenário é agravado pela constante incorporação de novas tecnologias e fármacos, cujos preços sobem em velocidade superior à atualização dos valores repassados pelo sistema. Além disso, o diagnóstico tardio — quando o paciente chega ao hospital com a doença em estágio avançado — torna o tratamento mais prolongado, oneroso e menos eficaz, gerando um custo duplo ao sistema, tanto financeiro quanto social.

Quando o financiamento regular é insuficiente, a continuidade dos serviços torna-se dependente de negociações pontuais e emendas parlamentares. Em Mato Grosso, uma reestruturação do contrato estadual ocorreu em junho de 2026, via termo de compromisso mediado pelo Tribunal de Contas do Estado. Embora o acordo tenha garantido a manutenção do atendimento, ele reforça que serviços de saúde essenciais não deveriam depender de mediações ou ciclos políticos.

Embora a criação do Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia, em outubro de 2025, tenha organizado a dispensa de medicamentos, a medida não abrange os custos fixos de pessoal, leitos, cirurgias e terapia intensiva, que permanecem subfinanciados. Especialistas defendem a revisão periódica da tabela, a adoção de modelos híbridos de pagamento e a garantia de um financiamento plurianual entre os entes federativos.

Por fim, é imperativo investir em estratégias de rastreamento e diagnóstico precoce para reduzir a mortalidade e os custos assistenciais. O financiamento da oncologia deve ser tratado como uma política de Estado perene, e não como uma sucessão de emergências. Os hospitais especializados já provaram sua capacidade de entrega; cabe ao sistema garantir recursos compatíveis com a complexidade da assistência contratada. Dr. Rafael Sodré de Aragão Vasconcellos Pereira é cirurgião oncológico e diretor técnico do Hospital de Câncer de Mato Grosso.

Fonte: midianews.com.br