O fim da era em que o algoritmo fazia o trabalho pesado nas
Novas regras do TSE para 2026 alteram a dinâmica das redes sociais, forçando candidatos a repensar estratégias de alcance e distribuição de conteúdo sem o apoio
Novas regras do TSE para 2026 alteram a dinâmica das redes sociais, forçando candidatos a repensar estratégias de alcance e distribuição de conteúdo sem o apoio algorítmico.
Profissionais da comunicação política no Brasil sempre estruturaram suas estratégias digitais sob uma premissa básica: criar materiais de alta qualidade para que o algoritmo das plataformas impulsionasse o conteúdo organicamente. A lógica era simples: um vídeo que engajava seguidores acabava sendo recomendado para usuários que sequer conheciam o candidato, permitindo que políticos rompessem suas próprias bolhas de forma gratuita. No entanto, o cenário para as eleições de 2026 sofreu uma transformação estrutural profunda.
A mudança decorre da Resolução nº 23.610 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que impõe restrições severas aos sistemas de recomendação. A norma determina que provedores excluam perfis oficiais declarados à Justiça Eleitoral de seus mecanismos de sugestão automática, exceto em casos de impulsionamento pago devidamente regulamentado. Na prática, isso significa que o algoritmo deixou de ser uma ferramenta gratuita de descoberta de novos eleitores.
Plataformas como o X já oficializaram a implementação de filtros específicos para o pleito brasileiro, impedindo que publicações de contas de candidatos apareçam no feed “Para Você” de usuários que não seguem o perfil. Trata-se da alteração mais significativa na comunicação eleitoral desde 2018, desmantelando a estratégia de depender da viralização orgânica para alcançar o eleitorado indeciso ou desconhecido.
Até então, o número de seguidores era frequentemente tratado como uma métrica secundária, já que um perfil pequeno poderia atingir grandes audiências através da recomendação algorítmica. Agora, a realidade eleitoral devolve o valor estratégico à base acumulada. Conquistar seguidores deixa de ser uma consequência natural da postagem e torna-se um objetivo central, forçando as campanhas a questionarem não apenas quantas pessoas assistiram ao conteúdo, mas quantas decidiram manter uma conexão duradoura com o candidato.
Essa nova dinâmica eleva a importância da distribuição paga e da estratégia de mídia. Se antes o impulsionamento era apenas um amplificador de conteúdos que já performavam bem, agora ele assume a função vital de descoberta. Conteúdo e tráfego pago precisam, portanto, operar como uma unidade única e integrada, focada em captar a atenção e converter o espectador em um seguidor fiel.
Além disso, o ecossistema de apoio ganha um protagonismo inédito. Como a conta oficial está limitada pelo algoritmo, a militância, lideranças locais e apoiadores espontâneos tornam-se os principais vetores de circulação da mensagem. A estratégia de comunicação deve, obrigatoriamente, transcender o perfil oficial do candidato, incentivando o compartilhamento humano, que volta a ser o motor principal da disseminação de ideias.
O comportamento do eleitor também passa a ser o foco: o conteúdo precisa ser útil, emocionante ou opinativo o suficiente para que o usuário sinta a necessidade de compartilhá-lo. Materiais puramente burocráticos ou de registro de agenda, que antes já tinham baixo impacto, tornam-se agora praticamente invisíveis. A necessidade de gerar conversa e engajamento real nunca foi tão urgente.
Paralelamente, observa-se o fortalecimento de canais de distribuição direta, como WhatsApp e listas de transmissão. As campanhas que investiram na construção de comunidades próprias estão mais protegidas contra as mudanças repentinas das plataformas. A lição é clara: enquanto seguidores pertencem às redes sociais, o relacionamento pertence à campanha.
Em 2026, a máxima de que “conteúdo é rei” precisará ser complementada pela ideia de que “distribuição é poder”. O sucesso eleitoral dependerá da capacidade de combinar presença territorial, mobilização, mensageria e uma estratégia de mídia rigorosa. O período da “preguiça estratégica”, onde bastava publicar e torcer pela viralização, chegou ao fim. O algoritmo não fará mais campanha por ninguém, e os candidatos serão obrigados a construir, passo a passo, seus próprios caminhos até o eleitor.
Fonte: rdnews.com.br