O impacto invisível: como o calor extremo na Europa pression
O custo real de secas e incêndios na Europa emerge meses depois, sobrecarregando cofres públicos e desafiando a capacidade de resposta dos governos da União Europeia.
O verdadeiro ônus financeiro das ondas de calor, secas prolongadas e incêndios florestais que assolam a Europa costuma ser revelado apenas meses após o fim dos eventos. Quando as chamas são controladas e o nível dos rios se estabiliza, os ministérios das Finanças enfrentam a conta pesada: indenizações a produtores rurais, reconstrução de infraestruturas críticas, aumento nos gastos com saúde pública e a queda na arrecadação decorrente da desaceleração econômica.
Essa carga financeira cresce em um ritmo superior ao das reservas públicas destinadas a emergências, com uma pressão particularmente severa neste ano. Dados do Observatório Europeu da Seca, vinculado ao programa Copernicus, indicam que, no final de julho, metade da União Europeia e do Reino Unido enfrentava condições de seca, sendo que 9% do território estava em nível de alerta máximo. Simultaneamente, rios vitais como o Reno, o Danúbio, o Pó e o Loire atingiram níveis mínimos históricos em agosto.
Segundo o Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, mais de 505 mil hectares foram consumidos pelo fogo até o início de agosto, superando os registros do mesmo período de 2025, que até então era considerado o pior ano da série histórica. A Agência Europeia do Ambiente (AEA) aponta que, entre 1980 e 2024, fenômenos extremos geraram 822 bilhões de euros em prejuízos diretos na UE, com um quarto desse montante concentrado apenas nos últimos quatro anos.
Ao ser questionada sobre essa concentração de danos, a AEA classificou o cenário como uma mudança de patamar. A agência utiliza médias móveis de 30 anos para suavizar a volatilidade anual e identificar tendências, observando um aumento de 3,4% ao ano nas perdas econômicas, com sinais claros de aceleração. Estimativas preliminares para 2025 sugerem que essa trajetória de prejuízos deve se intensificar ainda mais.
Um ponto crítico é a baixa cobertura de seguros. Apenas um quinto das perdas totais possui proteção securitária, índice que cai para cerca de 10% ou 11% quando se trata especificamente de secas, ondas de calor e incêndios. A AEA explica que isso ocorre porque esses riscos envolvem perdas indiretas complexas, como a degradação de ecossistemas, redução de rendimentos agrícolas, perda de vidas humanas e horas de trabalho perdidas, tornando a avaliação de danos extremamente difícil.
Com o aumento do chamado fosso de proteção, os governos acabam atuando como seguradores de última instância. No entanto, apenas quatro países da UE — Itália, Hungria, França e Áustria — possuem fundos específicos para catástrofes. Os demais dependem de reprogramações orçamentárias emergenciais, que costumam ser lentas. O centro de estudos Bruegel estima que os fundos da UE para desastres entre 2028 e 2034 totalizarão cerca de 5 bilhões de euros, valor insuficiente para cobrir sequer 15% dos danos causados pelas cheias de 2021 na Europa Ocidental.
A França, por exemplo, estimou que as ondas de calor deste verão custariam entre 10 e 15 bilhões de euros, representando até 0,5% do PIB nacional. Embora o governo tenha esclarecido que o cálculo foi uma extrapolação própria, o episódio ilustra a dificuldade de mensuração. Na Espanha, o combate aos incêndios, que já consumiram mais de 172 mil hectares até julho, pode custar entre 1,7 e 3,3 bilhões de euros, sem contar os gastos posteriores com recuperação ambiental.
Portugal enfrenta desafios estruturais na contabilização desses custos. A Autoridade Nacional de Proteção Civil admite a dificuldade de determinar o custo total de ocorrências específicas devido à fragmentação dos sistemas financeiros e operacionais. Uma comissão independente que analisou os incêndios de 2025 recebeu apenas um valor agregado, impossibilitando a análise detalhada, uma falha que já havia sido apontada pelo Tribunal de Contas em 2021.
O impacto macroeconômico é duradouro. Pesquisas do Bruegel indicam que o PIB de uma região pode ficar 1,5% abaixo do esperado dois anos após uma onda de calor, e até 3% menor quatro anos após uma seca severa. Apenas a seca de 2022 teria reduzido o crescimento do PIB per capita da UE em 1,35%, uma perda estimada em 203 bilhões de euros. Para este verão, o banco Triodos projeta um custo de 180 bilhões de euros para as economias do bloco.
Apesar desses números, o impacto imediato pode parecer contido em certos setores. Economistas da Oxford Economics observam que, embora o baixo nível do Reno afete a logística, outros setores como a indústria de defesa e serviços ao consumidor ajudam a compensar as perdas. Contudo, o setor alimentício é o mais vulnerável. A Comissão Europeia reduziu em 5% a previsão de produção de azeite, enquanto a colheita de cereais na Espanha deve sofrer uma queda significativa.
A previsão é que o calor e a seca adicionem até 1% à inflação alimentar na zona do euro no próximo ano, devido ao efeito cascata que atinge desde a matéria-prima até o varejo. Analistas já incorporaram esses custos em seus cenários de base, prevendo uma inflação alimentar estrutural em torno de 2,5%. O risco central é a criação de um ciclo vicioso de dívida soberana, onde os prejuízos climáticos travam o crescimento, elevam déficits e reduzem a capacidade de investimento em prevenção, tornando o continente cada vez mais vulnerável a futuros desastres. Fonte: pt.euronews.com