“Precisamos retribuir à natureza”: comunidades no Paquistão
Diante da crise climática, habitantes de Gilgit-Baltistan, no Paquistão, utilizam a técnica tradicional de “enxertia de glaciares” para garantir o abastecimento de água.
Nas elevadas cadeias montanhosas do Himalaia e do Karakoram, que atravessam a Ásia, escondem-se ecossistemas de extrema fragilidade. Com o aquecimento global, o degelo acelerado dos glaciares tem provocado riscos de inundações súbitas e alterado o fluxo natural das águas, prejudicando o abastecimento das populações locais durante os meses mais quentes. No território de Gilgit-Baltistan, administrado pelo Paquistão, comunidades têm resgatado a prática indígena conhecida como Gang Khswa , ou “enxertia de glaciares”, como uma estratégia de adaptação climática.
O método, frequentemente chamado de “casamento de glaciares”, consiste na criação de novas geleiras artificiais em altitudes elevadas. O processo envolve a coleta de gelo de fontes classificadas como “masculinas” — que contêm detritos como terra e pedras e possuem coloração acinzentada — e “femininas” — mais puras, transparentes e com maior capacidade de produção de água. O material é transportado por carregadores em cestos de madeira até locais escolhidos estrategicamente, situados a pelo menos 4.000 metros de altitude, com alta incidência de permafrost e proteção solar.
O Dr. Zakir Hussain Zakir, diretor de Planeamento e Desenvolvimento da Universidade do Baltistão, explica que a preparação ocorre no verão, mas a enxertia é realizada em outubro, quando as temperaturas caem abaixo de zero antes do início das nevascas. O gelo é depositado em poços ou grutas, intercalado com potes de barro, serradura, carvão e caroços de alperce para isolamento térmico. O processo exige um esforço contínuo de até 48 horas, durante o qual o gelo nunca pode tocar o solo, garantindo que o novo glaciar comece a se expandir após ciclos de neve e, em cerca de duas décadas, torne-se uma fonte estável de água.
Além da enxertia tradicional, surgiram inovações como as “ice stupas” — torres de gelo em formato cônico que retardam o derretimento — e o aproveitamento de avalanches por meio de redes de malha. Nazir Ahmed, da Baltistan Culture & Development Foundation (BCDF), aponta que, embora a prática tenha sido retomada nos anos 90, suas raízes remontam ao século XIV, sendo cercada por tradições orais e rituais espirituais que incluem o canto de canções de ninar para o “glaciar bebê”.
Mitos locais, como a proibição de falar durante o transporte ou de observar o gelo recém-enterrado nos primeiros dois anos, possuem, na verdade, funções práticas: o silêncio mantém o ritmo dos carregadores, enquanto o isolamento protege o novo glaciar de interferências externas. A BCDF, com apoio financeiro recente do Reino Unido, conseguiu ampliar a escala dos projetos, passando a transportar mais de 1.000 quilogramas de gelo por operação, e busca agora o reconhecimento da técnica como Patrimônio Cultural Imaterial pela UNESCO.
A participação comunitária é o pilar central dessa iniciativa. O Dr. Zakir enfatiza que a prática é um dever moral de retribuição à natureza, baseada na visão de que a água é um ser senciente e doador de vida. No entanto, o êxodo de jovens para grandes centros urbanos, como Karachi e Islamabad, em busca de educação e emprego, impõe desafios à continuidade do conhecimento tradicional.
Zeeshan Abbas, líder da iniciativa juvenil Siachen Sherpa, argumenta que a juventude não está desinteressada, mas carece de apoio institucional e recursos para atuar em campo. Ele defende que a nova geração pode atuar como uma ponte entre o saber ancestral e a tecnologia moderna, utilizando dados de satélite e GPS para complementar a experiência acumulada por gerações. Para Abbas, os jovens devem ser vistos como inovadores e decisores, e não apenas como vítimas das mudanças climáticas.
A importância dessas ações é sublinhada pela magnitude do chamado “Terceiro Polo”, que engloba as cordilheiras Hindu Kush-Karakoram-Himalaya e sustenta mais de 220 milhões de pessoas. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o aumento das temperaturas já resultou na formação de mais de 3.000 lagos glaciais na região, elevando os riscos de desastres naturais. Diante desse cenário, a preservação dessas técnicas ancestrais emerge como uma ferramenta vital para a resiliência das comunidades montanhosas do Paquistão.
Fonte: pt.euronews.com